
Apicultor francês mostra potes de mel colorido
(Foto: Vincent Kessler/Reuters)

Foi uma resposta macabramente concreta à dolorosa questão que acompanhara por anos a fio os familiares de tantos homens e mulheres assassinados pela ditadura: o que havia sido feito de seus corpos? Atônitos, o País e as famílias dos desaparecidos políticos descobriram a resposta ao mesmo tempo, e da pior forma possível. Em um canto do Cemitério Dom Bosco, no afastado bairro de Perus, na periferia de São Paulo, uma vala de 30 metros de comprimento por 50 centímetros de largura e 2,7 metros de profundidade surgiu aos olhos do público, tão escancarada quanto a tortura do período. Era 4 de setembro de 1990. Sob o olhar da mídia, os ossos foram saindo: 1.049 ossadas encheram dezenas de sacos plásticos, empilhados na grama um a um. Neles inexistia identificação dos corpos. Vítimas políticas e indigentes mortos de fome e meningite, inclusive crianças, dividiam os sacos. Em alguns, havia até três crânios. E assim, o passado dos dias de chumbo retornou à opinião pública, exumando a ditadura na memória coletiva do Brasil.
