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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Pop star… no Japão

Em 2004, uma oportuna gripe tornou o paulistano Ricardo Cruz ídolo das músicas japonesas de animes. Por Ricardo Carvalho. Foto: Olga Vlahou
O paulistano Ricardo Cruz, 29 anos, tornou-se um pop star japonês graças a um resfriado. Em 2004, um grupo de cantores de anime songs- – gênero das músicas de desenhos como Dragon Ball Z e Cavaleiros do Zodíaco – veio a São Paulo para uma participação especial na segunda edição do Anime Friends, hoje o maior evento de cultura pop oriental da América Latina. No único ensaio antes da apresentação, que contou com a presença do maior ícone de anime songs- no Japão, Hironobu Kageyama, uma das vocalistas estava gripada e preferiu poupar-se para o show. Cruz, fluente em japonês, conhecia as letras; assumiu o microfone e surpreendeu todos. No fim, Kageyama quis saber um pouco mais sobre o rapaz, descendente de italianos e portugueses, mas fanático pela cultura japonesa. Kageyama convidou-o a gravar uma fita demo com a música tema dos Abarangers, uma espécie de precursor dos bem mais famosos no Brasil Power Rangers. Ao receber a fita, o músico japonês de 50 anos a inscreveu num concurso para eleger o novo integrante do Jam Project (Japanese Animationsong Makers), o mais famoso grupo de anime songs do mundo, criado em 2000 e do qual Kageyama é líder. “Ele (Kageyama) ia me avisando que eu estava entre os dez finalistas, depois entre os cinco e, um dia, me ligou para dizer que eu tinha vencido”, diz Cruz. No ano seguinte, o novo integrante viajou para o Japão, conheceu os outros cinco músicos e gravou diversas trilhas para o projeto. Desde então, vai ao menos uma vez por ano ao país participar de turnês e da produção de discos. Até agora, ele compôs duas músicas para o grupo, sendo uma em português.
Em São Paulo, Cruz (acima) divide uma quitenete com os bonecos dos personagens que marcaram sua infância. Foto: Olga Vlahou
A porta de entrada de Cruz para a indústria fonográfica de anime songs pode ter sido um conveniente resfriado. Entretanto, sua bagagem cultural sobre o universo nipônico é extensa e de longa data. No início dos anos 1990, a extinta TV Manchete trouxe ao Brasil uma leva renovada de programas de super-heróis japoneses. Com 10 anos na época, Cruz passava as manhãs assistindo a títulos como Changeman, Jaspion e Jiban. “Eu me deslumbrava com os ideogramas japoneses que apareciam nas aberturas e os copiava todos nos cadernos da escola”, revela. Com o passar dos anos e a diversificação dos programas japoneses exibidos no Brasil, o interesse aumentou. Durante a adolescência, Cruz passava os fins de semana numa biblioteca de mangás – os quadrinhos orientais – na Vila Mariana e em videolocadoras da Liberdade especializadas em programação japonesa. “Eu tinha cadastro em praticamente todas. Chegava a alugar até talk shows e programas de auditório para tentar entender a língua.” Foi também na Liberdade que ele frequentou as exibições de animês (desenhos japoneses) na gibiteca Henfil, que ocorriam todo terceiro domingo do mês. “Eu quase repeti o segundo ano do colegial por matar aula para ir à Liberdade.” Aos 17 anos, incentivado pelo pai, Cruz conseguiu uma vaga para um intercâmbio pelo Rotary Club no estado japonês de Tochigi, a 100 quilômetros de Tóquio. No equivalente ao terceiro ano do ensino médio brasileiro, a principal atividade de lazer dos alunos era passar as tardes em karaokês. “Cantávamos principalmente anime songs e algumas pessoas vinham me dizer que gostavam da minha voz, mas eu nunca pensei que isso seria mais do que um hobby.” Ainda no Japão, ele foi a três apresentações do show Superhero Spirit, do qual Hironobu Kageyama participou. O músico é nacionalmente reconhecido por ter gravado as aberturas originais de séries como Dragon Ball Z, Changeman e Cavaleiros do Zodíaco.
No Japão, ao lado do padrinho musical Kageyama (à dir.)
De volta ao Brasil, em 2000, Cruz encontrou na explosão de produtos ligados à cultura japonesa um trabalho. Na Conrad, editou as revistas Pokémon Club e traduziu mangás lançados no País. Na mesma época, participou do AnimeCon, o primeiro grande evento de cultura pop nipônica no Brasil. Nele, ainda de maneira amadora, realizou pequenos shows. Em 2003, mediante uma parceria com o empresário Takashi Tikasawa, ajudou a organizar o primeiro Anime Friends, que possibilitou a vinda de Kageyama, além de outras figurinhas carimbadas no Japão, como Akira Kushida, cantor de Jiban e Jiraiya, e o ator Hiroshi Watari. “Foi a primeira vez que os fãs brasileiros tiveram contato com cantores japoneses. Em dois dias de evento, vieram mais de 18 mil pessoas.”
Único estrangeiro do grupo, Cruz orgulha-se por ser uma "ponte entre culturas"
Por morar no Brasil, a presença de Cruz no Jam Project é encarada como uma participação especial. Ele se orgulha por representar uma “ponte entre as duas culturas”. Ao escolher um brasileiro como novo integrante, o projeto reconheceu a forte presença dos animes no Brasil, país com a maior colônia de imigrantes japoneses do mundo. “Ao lado dos Estados Unidos, o Brasil é o país que mais tem tradição e que mais consome cultura pop japonesa.” O maior desafio da participação no Jam Project foram as apresentações realizadas na Arena Budokan, em 2009 e 2010. Localizada em Tóquio e com capacidade para 14 mil espectadores, a arena é famosa por ter recebido shows dos Beatles e Bob Dylan. “Durante o show, com a preocupação de não poder errar, de ter de decorar as letras e lembrar as marcações no palco, eu não consegui ter noção da proporção daquilo tudo.” Outro ponto que o surpreendeu é a relação com os fãs. Ao contrário do completo anonimato no Brasil, Cruz e os demais integrantes do Jam são recebidos com entusiasmo em estações de trem durante as turnês. “Os japoneses têm uma cultura de cozinhar para as pessoas que admiram. Sempre que a gente chega em uma cidade nova, vem um fã me entregar bolos, biscoitos etc.”
No lendário Budokan, shows que revelam o peso do gênero animesong no mercado fonográfico japonês
Ainda neste ano, Cruz deve voltar ao Japão ao menos outras duas vezes. Em dezembro, junta-se ao padrinho musical Kageyama e aos demais integrantes do Jam para mais uma temporada de gravações. Um pouco antes, em setembro, planeja divulgar o trabalho desenvolvido pela produtora Scifi-FX, que atualmente produz um filme de ficção científica brasileiro em parceria com estúdios norte-americanos e japoneses. “O Jam pode fazer uma música para a trilha sonora, é claro.” Fonte: Revista Carta Capital, ed. 661 (31/08/2011)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Amigas do DF criam 'Jaguatiricas do Cerrado' em paródia na internet

Inspiradas no filme “As panteras”, cinco amigas de Brasília resolveram fazer uma paródia na web e se transformaram nas "Jaguatiricas do Cerrado". Lançado em julho, o episódio piloto da websérie apresenta as personagens.

Danny (Daniela Azevedo) é tatuadora; Polly (Paula Amidani) não desce do salto nem para lutar; Tatty (Tayra Rudá) é fotógrafa; Sammy (Samara Sampaio) é a esportista do grupo; e Patty (Patricia Meschick) gosta de estar em contato com a natureza.

Além do interesse em comum pelas artes marciais e dos nomes terminados com “y”, as amigas compartilham a boa forma física no que parece ser o uniforme oficial das Jaguatiricas do Cerrado, o shortinho jeans.

Apesar disso, Patrícia, que também é produtora da série, diz que o objetivo não era chamar a atenção do público pela beleza. “A ideia era ser ridículo, sempre foi. A gente queria rir com isso. O objetivo não era fazer um filme bonitinho, com meninas bonitinhas e que sabem lutar bonitinho”, afirma em entrevista ao G1.

As cinco amigas se conheceram há cerca de 15 anos nas aulas de kung fu. Alcebíades Vilas Boas, que interpreta o garçom-vilão Biddy, também praticou artes marciais. Atualmente, apenas Paula e Samara continuam treinando e dividem a rotina de atleta com a faculdade de fisioterapia. Patricia é formada em desenho industrial, Tayra é formada em direito e Daniela é professora de educação física.

Namorado de Patrícia, diretor, roteirista e fotógrafo da série, Helano Stuckert afirma que a paixão por Brasília foi fundamental na escolha das locações, que privilegiam pontos conhecidos da cidade, como o Museu Nacional da República e uma passagem de pedestres subterrânea.

O roteiro do episódio piloto foi feito em um dia, a partir de uma ideia antiga de Stuckert. “A Patricia é campeã de kung fu e tem várias amigas que lutam, sempre pensei em filmar algo sobre isso.”

O casal começou a escrever o roteiro em março, enquanto esperava o carro ser lavado em um posto de gasolina. As filmagens, que tiveram custo zero, duraram um dia e meio, mas o projeto ficou engavetado até julho. De acordo com Stuckert, o roteiro do próximo episódio já está sendo escrito, mas ele só deve ser lançado no final de outubro.

“A gente fez por diversão mesmo, por vontade de filmar”, diz. O próximo episódio deve definir melhor as características de cada personagem, além de delimitar quem serão os inimigos das jaguatiricas. "A gente tinha pensado em algo como as Jaguatiricas do Cerrado lutam contra o Lobo Guará", diverte-se Stuckert.

As Jaguatiricas do Cerrado em ação nas ruas de Brasília (Foto: Reprodução)
As Jaguatiricas do Cerrado enfrentam o misterioso
garçom Biddy nas ruas de Brasília (Foto: Reprodução)

Fonte: G1, em 24/08/2011 

Vejam o piloto da Série no vídeo a seguir!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Descoberta sobre grafeno pode criar Internet ultrarrápida

Cientistas britânicos desenvolveram uma maneira de usar o grafeno, o material mais fino do mundo, para capturar e converter mais luz do que era possível anteriormente, o que abre caminho a avanços na Internet de alta velocidade e outras formas ópticas de comunicação.


Em um estudo publicado pela revista Nature Communication, a equipe, que inclui Andre Geim e Kostya Novoselov, cientistas premiados com o Nobel no ano passado, descobriu que, ao combinar grafeno e nanoestruturas metálicas, o volume de luz que o grafeno é capaz de absorver e converter em energia elétrica aumentava em 20 vezes.

O grafeno é uma forma de carbono com espessura de apenas um átomo, e ainda assim 100 vezes mais forte que o aço.

- Muitas das maiores companhias de eletrônica estão considerando o grafeno para sua próxima geração de aparelhos. Esse trabalho reforça as chances do grafeno ainda mais – disse Novoselov, cientista russo que, com Geim, conquistou em 2010 o Nobel de Física por suas pesquisas sobre o grafeno.

Trabalhos anteriores tinham demonstrado que é possível gerar energia elétrica ao instalar duas estruturas metálicas de entrelaçamento fino sobre uma base de grafeno, e fazer com que todo o aparato receba luz, convertendo-o na prática em uma célula solar simples.

Os pesquisadores explicaram que, devido à mobilidade e velocidade especialmente elevada dos elétrons no grafeno, essas células produzidas com o material podem atingir velocidades incrivelmente rápidas, dezenas ou potencialmente centenas de vezes mais rápidas que as oferecidas pelos cabos de Internet mais velozes hoje em uso.

O principal obstáculo a aplicações práticas até o momento vinha sendo a baixa eficiência das células, segundo os pesquisadores. O problema é que o grafeno absorve pouca luz -apenas cerca de três por cento; o restante passa pelo material sem contribuir para a geração de energia.

Em uma colaboração entre as universidades de Manchester e Cambridge, a equipe de Novoselov constatou que o problema poderia ser resolvido por uma combinação entre grafeno e as minúsculas estruturas metálicas conhecidas como nanoestruturas plasmônicas, dispostas em padrão especial por sobre o grafeno.

Essa disposição permitiu que o desempenho de absorção de luz do grafeno melhorasse em 20 vezes, sem sacrifício de velocidade, a equipe afirmou no estudo. A eficiência pode ser ainda mais melhorada no futuro, afirmaram.

Fonte: Correio do Brasil, em 30/08/2011

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Cientistas anunciam rio subterrâneo de 6 mil km embaixo do Rio Amazonas

Pesquisadores do Observatório Nacional (ON) encontraram evidências de um rio subterrâneo de 6 mil quilômetros de extensão que corre embaixo do Rio Amazonas a uma profundidade de 4 mil metros. Os dois cursos d"água têm o mesmo sentido de fluxo - de oeste para leste -, mas se comportam de forma diferente.

A descoberta foi possível graças aos dados de temperatura de 241 poços profundos perfurados pela Petrobrás nas décadas de 1970 e 1980, na região amazônica. A estatal procurava petróleo.

Fluidos que se movimentam por meios porosos - como a água que corre por dentro dos sedimentos sob a Bacia Amazônica - costumam produzir sutis variações de temperatura.

Com a informação térmica fornecida pela Petrobrás, os cientistas Valiya Hamza, da Coordenação de Geofísica do Observatório Nacional, e a professora Elizabeth Tavares Pimentel, da Universidade Federal do Amazonas, identificaram a movimentação de águas subterrâneas em profundidades de até 4 mil metros.

O dados do doutorado de Elizabeth, sob orientação de Hamza, foram apresentados na semana passada no 12.º Congresso Internacional da Sociedade Brasileira de Geofísica, no Rio.

Em homenagem ao orientador, um pesquisador indiano que vive no Brasil desde 1974, os cientistas batizaram o fluxo subterrâneo de Rio Hamza.

Características. A vazão média do Rio Amazonas é estimada em 133 mil metros cúbicos de água por segundo (m3/s). O fluxo subterrâneo contém apenas 2% desse volume com uma vazão de 3 mil m3/s - maior que a do Rio São Francisco, que corta Minas e o Nordeste e beneficia 13 milhões de pessoas, de 2,7 mil m3/s. Para se ter uma ideia da força do Hamza, quando a calha do Rio Tietê, em São Paulo, está cheia, a vazão alcança pouco mais de 1 mil m3/s.

As diferenças entre o Amazonas e o Hamza também são significativas quando se compara a largura e a velocidade do curso d"água dos dois rios. Enquanto as margens do Amazonas distam de 1 a 100 quilômetros, a largura do rio subterrâneo varia de 200 a 400 quilômetros. Por outro lado, a s águas do Amazonas correm de 0,1 a 2 metros por segundo, dependendo do local. Embaixo da terra, a velocidade é muito menor: de 10 a 100 metros por ano.

Há uma explicação simples para a lentidão subterrânea. Na superfície, a água movimenta-se sobre a calha do rio, como um líquido que escorre sobre a superfície. Nas profundezas, não há um túnel por onde a água possa correr. Ela vence pouco a pouco a resistência de sedimentos que atuam como uma gigantesca esponja: o líquido caminha pelos poros da rocha rumo ao mar.

Temperatura. Hamza e Elizabeth apontam a existência do que os pesquisadores chamam de "dois grandes sistemas de descargas de fluidos na Amazônia": o Rio Amazonas, com seus 6.100 km de extensão, e o fluxo oculto das águas subterrâneas.

Segundo os dados apresentados por Elizabeth, o fluxo subterrâneo é praticamente vertical - de cima para baixo - nos primeiros 2 mil metros. Depois, nas camadas mais profundas, muda de direção, tornando-se quase horizontal. Depois de atravessar as bacias do Solimões, Amazonas e Marajó, o rio alcança o fundo do mar, perto da foz do Amazonas.

Hamza argumenta que as descargas do fluxo subterrâneo de água doce poderiam explicar os bolsões de baixa salinidade comuns no litoral da região.

O geólogo Olivar Lima, da Universidade Federal da Bahia, assistiu à apresentação do trabalho e, na ocasião, mostrou aos autores mais dados, obtidos em outros poços perfurados pela Petrobrás na foz do Amazonas, que confirmam as conclusões do estudo. Porém, acha um exagero classificar a descoberta como um rio.

"Os resultados são muito bons", afirma Lima. "Só não acho correto propor a existência de um rio subterrâneo." Ele argumenta que os dados permitem afirmar a existência de um imenso fluxo de água através das formações permeáveis da Bacia Amazônica. Mas a velocidade seria muito baixa para justificar a categoria de rio.

Contudo, se por um lado a velocidade não se compara à de um rio convencional, o volume de água assume ordens de grandeza que tornariam compreensível tal comparação, reconhece o pesquisador.

A descoberta, por enquanto, não mudará a vida das populações que habitam a Bacia Amazônica. Como o rio está a uma profundidade muito grande e há muita água doce na superfície, não seria economicamente razoável perfurar a terra para acessar o curso d"água. O estudo pode ajudar, no entanto, a prospecção de petróleo.

PARA LEMBRAR

Há dois anos, cientistas italianos descobriram um rio subterrâneo que corre embaixo de Roma, mais extenso que o Tibre - o terceiro maior da Itália, com 392 quilômetros. Assim como o brasileiro, o rio subterrâneo italiano foi encontrado graças a dados de perfuração de poços.

No Brasil, outra reserva de água subterrânea é o Aquífero Guarani, com 45 milhões de litros. A maior parte fica no Brasil, mas ele também se estende no Paraguai, Uruguai e Argentina.

Fonte: O Estado de São Paulo, em 25/08/2011

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Maconha: crime de quem e para quem?

Rodolpho Motta Lima*

Nos últimos artigos aqui publicados, tenho manifestado minha inquietude com o fato de que, em nosso país, todos os assuntos, por mais abrangentes que sejam, por mais sérios que se revelem, acabam caindo na vala comum do partidarismo político, o que, não raramente, termina inviabilizando a correta discussão dos temas e, em consequência, a execução de medidas que interessem à maioria dos brasileiros.

Nas eleições, isso aconteceu com a discussão sobre o aborto, em que a mídia apoiadora do Serra quis usar o tema contra a Dilma; recentemente, isso também ocorreu com a questão do livro do MEC, ou com a questão do combate à homofobia, em que, nitidamente, o que se pretendeu foi obter dividendos políticos de oposição ao governo.

É a esse propósito que trago aqui, para discussão, a questão da descriminalização da maconha, que está sendo colocada em relevo, entre outras razões, pela participação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que a ela se manifesta favorável .

Fernando Henrique Cardoso não merece a minha admiração no campo político, talvez até porque a tenha obtido em tempos outros, nos quais o sociólogo defendia as mesmas ideias que hoje continuo defendendo , mas que ele, por certas conveniências e comodidades, esqueceu e mandou que esquecessem...

Mas o assunto da descriminalização da maconha transcende posicionamentos político-partidários e, nesse caso específico, creio que está correta a proposição de uma ampla discussão do tema pela sociedade.

Repudio as drogas e não considero defensáveis as razões que muitos buscam para justificar a sua presença crescente na sociedade. Abomino os que enriquecem com elas e lamento por aqueles usuários que, desinformados e manipulados, se tornam dominados pelo vício. Esse lamentar não se estende, porém, a uns tantos endinheirados da classe média/alta, que, por puro hedonismo e desfrute, acabam entrando nesse mundo. E talvez por isso eu considere que a descriminalização possa vir a ser implementada: em uma sociedade de castas como a nossa, o uso da droga só é crime para quem não tem dinheiro, ou seja, apenas são punidos pela lei os que não têm poder econômico para passar por cima dela.

Como professor, tenho podido testemunhar, com grande pesar, muitos casos de envolvimento dos jovens com drogas, esses jovens que, em uma família desleixada ou desatenta e em uma sociedade permissiva, acreditam que o sucesso vem com as “viagens” feitas com a droga. Já vi muitas potencialidades se perderem nesses caminhos do vício...

No entanto, o certo é que a forma de combater esse problema não é a que vem sendo posta em prática pelas autoridades governamentais ou por outros setores sociais. As medidas de repressão, mesmo quando são executadas para valer (o que, geralmente, não acontece, por certas “cumplicidades” que todos conhecemos) , não atingem os seus objetivos de diminuição do tráfico. E, fundamentalmente, não afastam os usuários das drogas.

Não há outro jeito de minimizar as drogas na sociedade senão a partir de um processo de educação, nas escolas e fora delas. É preciso que, seriamente, se desenvolvam campanhas de esclarecimento quanto aos malefícios das drogas – a maconha entre elas -, como se fez, por exemplo, com o cigarro. É inegável que o combate institucional ao fumo deu resultados e , hoje, a sociedade como um todo já se posiciona claramente contra .

Substituir a criminalização pelo processo educativo é, parece-me, a única estrada a trilhar se queremos minimizar o uso da droga e impedir a sua crescente disseminação na sociedade, sob formas mais perversas ainda, como estamos vendo acontecer com o crack e o oxi.

Dizem os entendidos que a maconha não traz os males que outras drogas provocam à saúde. Pode ser. Parece-me, porém, que o processo de sua descriminalização – que , em princípio, defendo – tem que ser acompanhado de outras providências para que não provoque, pela “tendência ao proibido”, uma corrida a outras drogas mais pesadas e letais.

De qualquer forma, não dá para fingir que não estamos vendo. Não dá para fechar os olhos a esse processo de alienação que as drogas provocam , como fuga à realidade e acomodação. Um certo “pão e circo” que imobiliza tantos jovens, para lucros e conveniências de outros não tão jovens assim...

Acho que temos que discutir sobre a quem incriminar nesse processo. Para mim, é óbvio que não se podem eximir de crime os fornecedores, os que movimentam somas astronômicas com o tráfico e lucram com a infelicidade alheia. Esse assunto tem que vir expressivamente à tona e, quem sabe, tudo possa redundar em um grande plebiscito nacional, fórmula que, cada vez mais, a julgar pela falta de representatividade dos nossos legisladores, considero a ideal para a busca das grandes soluções que o país exige.

(*) Rodolpho Motta Lima é advogado formado pela UFRJ-RJ (antiga Universidade de Brasil) e professor de Língua Portuguesa do Rio de Janeiro, formado pela UERJ , com atividade em diversas instituições do Rio de Janeiro. Com militância política nos anos da ditadura, particularmente no movimento estudantil. Funcionário aposentado do Banco do Brasil.

Fonte: Direto da Redação, em 23/07/2011