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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A Importância da Radiodifusão Comunitária para a democratização da Comunicação

As rádios comunitárias são a maior e mais ampla experiência de democratização da comunicação no Brasil pós redemocratização. São milhares de emissoras que levam informação e promovem a cultura local em milhares de municípios. Muitas cidades têm na rádio comunitária a única emissora local. A radiodifusão comunitária faz o enfrentamento cotidiano ao monopólio da comunicação, seja difundindo informações de interesse das comunidades, que os meios de comunicação privados não divulgam, seja enfrentando as campanhas difamatórias dos donos da mídia (tipo “rádio comunitária derruba avião”) e, principalmente, mostrando que uma outra comunicação é possível.

Entretanto esta experiência radical de democratização da comunicação tem enfrentado a dura repressão policial do Estado brasileiro. Cinco mil comunicadores populares condenados, criminalmente, por operarem rádios comunitárias sem licença e 100 milhões de reais em equipamentos apreendidos. Esta é a retribuição que o Estado dá para milhares de pessoas de bem que tem como único objetivo criar um meio de comunicação democrático, a serviço de suas comunidades. Toda esta situação é motivada por uma legislação criada para inviabilizar as radcons e pela lentidão na analise dos processos de solicitação de outorga.

A I Conferência Nacional de comunicação – CONFECOM – representa uma oportunidade para começar a mudar esta situação. Para preparar a participação das rádios comunitárias na Conferência a ABRAÇO Nacional organizou a I Conferência Livre Nacional de Comunicação das Rádios Comunitárias, no dia 11 de outubro, em Brasília. O evento contou com a participação de cerca de 100 delegados, de 15 estados e do Distrito federal e preparou o movimento das rádios comunitárias para o embate com a mídia corporativa na CONFECOM.

O encontro foi um momento de formulação de propostas que sintetizam mais de uma década de lutas da ABRAÇO. A CONFECOM representa a oportunidade de afirmar a importância da comunicação comunitária para a democratização da mídia e para a construção da cidadania, particularmente nas periferias urbanas e nas pequenas cidades. Pela primeira vez na história do Brasil as políticas públicas de comunicação serão discutidas publicamente.

A Conferência aprovou a proposta de Criação de uma Lei Geral da Radiodifusão, englobando os sistemas: público, estatal e privado, dando um tratamento isonômico para as rádios comunitárias. Outros itens aprovados foram o financiamento público para as emissoras comunitárias, anistia para os comunicadores punidos por operarem rádios comunitárias sem licença, a indenização, em valores atualizados, pelos equipamentos apreendidos pela ANATEL e a permissão para veicular publicidade. Também foi aprovada a elevação da potência das rádios comunitárias para, até 250 wats, o aumento do número de canais para, no mínimo, três canais por município, a garantia de recursos públicos para digitalização das emissoras comunitárias, a permissão de transmitir em rede e a desburocratização dos processos de outorga.

Propostas da ABRAÇO para as rádios comunitárias

1 - Criação de uma Lei Geral da Radiodifusão, que contemple os sistemas público (incluído as rádios comunitárias), estatal e privado. Esta nova lei deverá assegurar o livre funcionamento das rádios comunitárias, como um serviço público relevante e com um tratamento isonômico.

2 – Desburocratização das concessões das rádios comunitárias:
a) Criação da Subsecretaria de Radiodifusão Comunitária com um Conselho de Acompanhamento de Processos de Autorizações para Radcom, com a participação da sociedade civil e o poder público;
b) Abertura de aviso de habilitação nacional permanente, com prioridade para as regiões não atendidas pelo serviço de radiodifusão comunitária e, respeito aos pedidos históricos;
c) criação de uma lista única (disponibilizada na internet) dos processos, pela data de protocolo. Um processo só poderá passar na frente de outro anterior caso o requerente do processo anterior não atenda as exigências de correção do projeto e/ou apresentação de documentos, dentro dos prazos estabelecidos;
d) Agilização na tramitação dos processos com a realização de concurso público para contratação de servidores para o setor responsável pelo licenciamento das emissoras comunitárias;
e) Realização de mutirão para colocar em dia os processos que estão em tramitação no Ministério;
f) Resgate dos processos, de solicitação de outorga, arquivados pelo Ministério das Comunicações;
g) Garantia de suporte técnico, por parte do Ministério das Comunicações, para as comunidades que queiram instalar uma rádio comunitária;
h) Criação de representações estaduais do Ministério das Comunicações.

3 – Fim da criminalização da rádios comunitárias e dos comunicadores populares, com a revogação da legislação que considera crime a operação de emissoras sem a autorização.

4 - Reparação e anistia para os comunicadores processados e/ou punidos por operarem rádios comunitárias sem outorga: anistia para os comunicadores populares punidos, criminalmente, por operarem rádios comunitárias.

5 – Indenização dos equipamentos apreendidos, em valores atualizados.

6 – Normatização da fiscalização de interferências em sistemas de comunicação:
a) necessidade de comprovação da interferência;
b) notificação da emissora para apresentação de defesa prévia;
c) Caso a defesa prévia não seja aceita, notificação estabelecendo prazo para a emissora se adequar às especificações técnicas;
d) Caso não seja atendida a notificação deverá ser aplicada multa;
e) Em caso de reincidência aplicação de multa com o valor dobrado;
f) em caso de nova reincidência, apreensão dos equipamentos;
Este procedimento deve ser aplicado tanto às rádios com outorga, quanto as emissoras que solicitaram concessão a mais de seis meses e não tiveram o seu processo despachado pelo Ministério das Comunicações. A legislação deve assegurar também a proteção das rádios comunitárias contra a interferência de outros serviços de comunicação.

7 – Fim do poder discricionário da ANATEL: as rádios comunitárias que solicitaram outorga a mais de seis meses e não tiveram o seu processo indeferido, sem possibilidade de recurso na esfera administrativa, não poderão ser multadas ou fechadas pela ANATEL, pelo fato de não terem outorga.

8 – Possibilidade de adequação as exigências técnicas e legais: nenhum processo de solicitação de outorga poderá ser indeferido sem que seja oferecido ao solicitante amplas possibilidades para adequação as exigências legais e aos requisitos técnicos.

9 – Permissão da transmissão em rede: viabilizando a integração na diversidade.

10 – Aumento de potência até 250 e o aumento da altura da antena, de acordo com as especificidades do relevo e da distância.

11 – Aumento do número de canais destinados às emissoras comunitárias: no mínimo, três canais na faixa de 88 a 108 MHz..

12 – Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Comunicação Comunitária: o Fundo deve atuar no financiamento, a fundo perdido, dos equipamentos necessários a instalação da emissora.

13 – O fim da proibição de veiculação de publicidade nas rádios comunitárias e a economia solidária: assim será possível atender tanto os pequenos comerciantes da comunidade, quanto os empreendimentos da economia popular e solidária, democratizando o acesso a publicidade.

14 – Destinação de publicidade pública para as rádios comunitárias: a ABRAÇO propõe a criação, pela Secom, de editais específicos para as mídias comunitárias, destinando cinco por cento da verba publicitária para as emissoras comunitárias, o mesmo deve ser feito nos estados, no Distrito Federal e nos municípios.

15 – Tevês Comunitárias em sinal aberto: a regulamentação da tevê digital deve garantir o acesso das tevês comunitárias ao sinal aberto.

16 - Fim das cobranças do ECAD: as rádios comunitárias não têm o lucro por finalidade, portanto não se justifica a cobrança pelo ECAD de direitos autorais.

17 – Garantia de digitalização sem custos: o Governo Federal deverá garantir a migração, das emissoras comunitárias, para o rádio digital sem custos.

18 - Tratamento isonômico para as rádios comunitárias: o fim da proibição de transmissões externas, garantindo um tratamento igualitário entre as emissoras comunitárias, privadas e estatais.

Controle social das políticas públicas de comunicação

1 – Conselho de Comunicação Social: recomposição imediata do CCS, com a regulamentação do processo de renovação de seus conselheiros para evitar problemas de continuidade.

2 - Institucionalização das Conferências Nacionais de Comunicação, através de Lei Federal. Com a realização a cada dois anos da Conferência Nacional de Comunicação, que a partir da próxima deverá ter etapas municipais eletivas.

3 – Criação de conselhos estaduais e municipais de comunicação: garantindo, em todos os entes federados, a existência de instâncias democráticas de deliberação das políticas públicas de comunicação.


Propostas Gerais da ABRAÇO para a CONFECOM


1 – Marco Regulatório: a Conferência deve estabelecer um novo Marco Regulatório para o setor. Isso passa pela regulamentação do artigo 220 da Constituição Federal que estabelece: “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”.
Fim da propriedade cruzada dos meios de comunicação (um mesmo grupo controlar rádios, tevês, jornais etc), a limitação do número de emissoras em poder de uma mesma empresa ou família e a obrigatoriedade de parte dos programas exibidos serem adquiridos junto a produtores independentes.

2 – Concessões: estabelecer formas transparentes, e submetidas ao controle social, com meio de garantir a democratização da comunicação. A renovação das concessões deve passar pela análise da programação do veículo, o cumprimento das exigências constitucionais e a inexistência de débitos trabalhistas, previdenciários, impostos federais, estaduais e municipais como critérios para a renovação, que deve passar por audiência pública na localidade onde o canal está sediado antes de ser votada pelo Congresso Nacional. Regulamentação do artigo 223 da CF, destinando 1/3 dos canais para cada sistema, o público, o estatal e o privado.

3 – Produção independente: definição, em lei, de percentual mínimo de programas que devam ser adquiridos junto a produtores independentes.

4 – Regionalização: regulamentação, através de lei, do artigo 221 da Constituição que estabelece, no inciso III, a: “regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei”.

5-Questão étnica: política afirmativa que garanta a exibição de programas que abordem a cultura afro descendente. Outra ação afirmativa deve ser a garantia de um número mínimo de atores negros nas produções televisivas, considerando o percentual da população negra no conjunto da população brasileira. Na aquisição de programas de produtores independentes, também, deve ser assegurado um número mínimo de produções que abordem a temática étnica.
Os índios, ciganos e migrantes também sofrem discriminação na sociedade e os meios de comunicação acabam por reproduzir esta discriminação. Portanto é necessária uma política de ações afirmativas que inclua estas populações na programação televisiva brasileira.

6-Gênero: legislação que proteja a mulher da exploração da imagem e da vulgarização, garantindo os direitos civis femininos. A legislação, também, deverá garantir a proibição de veiculação de conteúdo homofóbico ou degradante à cultura LGBT nos meios de comunicação. Os veículos públicos devem ter em sua grade de programação assuntos relacionados às temáticas LGBT, combatendo a discriminação e valorizando a população LGBT. .

7-Rádio digital: criação de um sistema brasileiro de rádio digital, testado, prioritariamente, pelas rádios comunitárias.

8-Convergência tecnológica:
a) o acesso gratuito das rádios comunitárias a internet;
b) a implantação de uma rede wimax nas áreas urbanas, como instrumento para garantir o acesso gratuito à internet;
c) o incentivo a produção de receptores de wimax, abrindo um novo espaço para as rádios comunitárias, através do voip (voz sobre IP). Esta rede pode ser implantada em parceria com as empresas estaduais e municipais de Tecnologia da informação TI.
d) o fortalecimento da Telebrás para garantir a oferta de banda larga gratuita para as comunidades e meios de comunicação comunitários

9-Operador de Rede Público: criação de um Operador Público que atenda as tevês estatais e públicas. Com a garantia da transmissão digital, em sinal aberto, para as televisões comunitárias.

10 – Empresa Brasileira de Comunicação: criação de 6 centros de produção, no sul, no sudeste, no centro oeste, no norte, no nordeste I e no Nordeste II, com a divisão equânime da grade de programação, propiciando retratar a diversidade cultural, artística e jornalística do Brasil.

11 - Criação de cursos modulares, e curriculares, nas escolas públicas – A criação de cursos de formação em mídia comunitária permitirá a superação da relação vertical: emissor-receptor, substitui-do-a por uma relação horizontal, onde todos podem ser produtores e receptores, simultaneamente.

Fonte: Josué Franco Lopes - Coordenador de Comunicação da Abraço Nacional

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Era fácil ser publicitário...

Era! Hoje em dia, as ações publicitárias são cada vez mais elaboradas, envolvendo muitas pessoas e - após o advento e explosão da Internet - buscando uma fortíssima interação com o público.

Vejam dois cases da empresa de telefonia T-Mobile, realizados em Londres:

1. Imagine durante um dia comum em uma estação de metro, você e outro usuários do transporte fossem surpreendidos com uma música alta...grande coisa certo!? Imagine agora se cerca de 80 pessoas começassem a dançar juntas em uma coreografia única!! Esta foi a ação criada pela agência Saatchi & Saatchi para a T-Mobile em Londres.

A ação aconteceu na estação Liverpool Street, para promover os serviços de celular da empresa e o conceito "Life's for sharing" ("Vivendo Para Compartilhar"). A idéia é genial, pois além de ser memorável e ter grande impacto, provocou uma grande massa de curiosos filmando com seus celulares e enviando a amigos, ou seja, compartilhando...sacou a interação com o slogan?

Realmente é de se tirar o chapéu.

Assista ao vídeo da ação logo abaixo:



2. Na outra ação, a T-Mobile simplesmente mandou um convite pelo celular: "esteja na Trafalgar Square tal dia, tal horário". E nada mais foi dito.

Os que foram acharam que iam dançar, como tem acontecido em outras mobilizações desse tipo. Mas, na hora, foram distribuídos microfones. Muitos, muitos, muitos mesmo, e fizeram um karaokê gigante, de surpresa! E todo mundo que estava na praça, quem estava passando, quem nem sabia do convite, cantou junto...

Quem um dia curtiu os Beatles, vai se emocionar.

domingo, 20 de setembro de 2009

LivroClip

Como chamar a atenção, hoje em dia, para um livro? Como alcançar a molecada?

Bom, conheçam o LivroClip (http://www.livroclip.com.br), um projeto legal, um viral de divulgação para diversos livros... EXCELENTE!!! Indicadíssimo!!!

Achei esse, do Inferno de Dante, duca!

Da Lama ao Caos faz 15 anos!!

Galera

Em um daqueles raros momentos, a Folha de São Paulo publicou bom material sobre os 15 anos do lançamento do álbum Da Lama ao Caos, de Chico Science.

ABRAÇOSSSS
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Álbum inaugural do movimento completa 15 anos e ainda é referência

MARCUS PRETO
DA REPORTAGEM LOCAL


"Da Lama ao Caos", 15. Lançado pelo pernambucano Chico Science (1966 -1997) e sua banda, a Nação Zumbi, o álbum que dividiu águas na música pop-popular brasileira dos anos 90 ganha baile de debutante nesta noite.
A mesma data redonda estimula balanços, análises e (auto) avaliações. Quais os efeitos reais desse petardo -e do "movimento" mangue beat, lançado por ele e repercutido no disco seguinte, "Afrociberdelia" (1996)- no que foi feito na cultura do país a partir disso?
"Na boa, esse disco influenciou toda a geração que veio depois dele", garante Carlos Eduardo Miranda, produtor musical de bandas como Mundo Livre S/A, Raimundos, Skank e O Rappa. "E eu não estou falando só de música, mas também de moda, de cinema."
Segundo Miranda, a "maneira livre" de criar que muitas dessas bandas têm hoje é influência em parte dos Mutantes, em parte do mangue beat.
Ele conta que, quando o primeiro álbum do Mundo Livre foi lançado, a ideia era confundir. "A gente inventou que não era "beat", mas "bit" - isso pra não acharem que se tratava simplesmente de uma batida de maracatu com hip hop e metal por cima. As pessoas ouviam aquilo e entendiam como um gênero musical. Não era."
O rótulo "mangue beat" ainda confunde. Produtor de "Afrociberdelia", Eduardo BID lembra que o conceito nasceu com outro viés: o ideológico.
"Acompanhei aquilo de perto e considero o mangue beat muito mais um grito de "ei, a gente existe e nosso Estado também tem muito o que dizer para o Brasil" do que um movimento musical ou estético."
Ao menos no que diz respeito à repercussão cultural, Recife andava um marasmo na era pré-"Da Lama ao Caos". A capital do Estado que fizera nascer o frevo, a ciranda e o maracatu estava com a autoestima baixa.
"Tinha gente atuando na cidade, mas sem credibilidade nenhuma da plateia", conta o jornalista José Teles, autor do livro "Do Frevo ao Manguebeat". A partir da projeção de Science, Recife refloresceu. Em um único fim de semana chegavam a acontecer dez shows.
A avalanche cultural logo extrapolou a música. O exemplo mais bem acabado disso foi "Baile Perfumado" (1996), primeiro longa de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, premiado como o melhor filme daquele ano no Festival de Brasília.
"Muitos filmes feitos hoje em Pernambuco ainda replicam a ousadia e a invenção que o disco trouxe", diz Lírio. "Aquilo despertou a cidade, que passou a respirar uma grande autoestima deflagrada por aquela música. E o cinema veio na sequência, bebendo completamente dessa energia cultural."
Passados esses 15 anos, a novíssima geração musical pernambucana já renega os laços com Science. Lucio Maia, membro-fundador da Nação Zumbi e guitarrista de "Da Lama ao Caos", diz que assiste essa reação "de camarote, às gargalhadas". "Isso tudo também é influência. Influência pelo avesso, mas influência."


FRED ZERO QUATRO - Hoje o mangue beat não passaria de duas comunidades no Orkut
Vocalista da banda Mundo Livre S/A fala sobre o movimento musical surgido em Pernambuco no início dos anos 1990

Um dos principais artífices do mangue beat ao lado de Chico Science (1966-1997), Fred Zero Quatro afirma que o movimento surgido no Recife no início dos anos 1990 ajudou a romper com o conservadorismo e com o tradicionalismo. Hoje com 47 anos e dividindo o papel de vocalista do Mundo Livre S/A (que completa 25 anos de vida) com um cargo de assessor técnico da Secretaria da Cultura do Recife, Fred critica as mudanças ocorridas na música com a chegada da internet.

THIAGO NEY
DA REPORTAGEM LOCAL

FOLHA - Quando sai novo disco do Mundo Livre?
FRED ZERO QUATRO - Já temos 15 ou 16 músicas para o álbum, que vai chamar "Durar É Viver". O disco celebra os 25 anos da banda. Já fizemos um show com vários convidados no festival de Garanhuns, talvez lançaremos um DVD. Há selos argentinos, portugueses e americanos querendo licenciar o disco, mas ainda estamos aguardado sair um edital para bancarmos a finalização do disco.

FOLHA - É necessário buscar esse tipo de apoio para lançar discos?
FRED - É um reflexo da desconstrução do circuito da música que estamos vivendo. Os medalhões estão recorrendo a leis de incentivo para turnês, para gravar CDs, DVDs. Antes eram leias apropriadas ao perfil dos alternativos. E agora como ficam os alternativos? O guarda-chuva vai abrigar todo mundo? Tenho trombado com um monte de gente que simplesmente não tem como lançar disco, porque as gravadoras não querem gastar dinheiro.

Folha - Como você encara as mudanças ocorridas no mercado da música com a internet?
FRED - Tenho participado de debates sobre cultura e percebo que, a despeito de toda a questão do acesso democrático e da maior visibilidade que chegaram com a internet, um fato inegável é que a web tem desestruturado quase todas as cadeias que se envolvem com a digitalização, do jornalismo à música. Hoje é moda celebrar a web, dizendo que finalmente nos livramos dos malas da indústria fonográfica. Tudo bem, a indústria até tinha um aspecto predatório, mas uma coisa é você defender a ausência da indústria, a ausência da cadeia produtiva. Se o mangue beat tivesse surgido num ambiente parecido com o que rola hoje, com gravadoras em crise, talvez o mangue beat tivesse se limitado a uma ou duas comunidades de Orkut, uma coisa de gueto. [No início dos anos 90] A Sony foi a Recife, contratou o Chico Science e bancou o primeiro clipe da banda, que rodou direto na MTV. Finalmente a indústria olhava para nós. E teve um efeito multiplicador forte. As pessoas esquecem isso. Hoje há uma situação sem indústria, sem cadeia produtiva. Está se instalando uma religião da tecnologia, um fundamentalismo tecnológico. Fala-se muito em economia sustentável, mas na cultura não existe consumo sustentável.

Folha - Há uma alternativa?
FRED - Estamos todos aguardando que surja um novo modelo de negócio baseado na web 2.0. Mas ele não surge.

FOLHA - O Mundo Livre existe desde 1984. Como era a banda antes do estouro do mangue beat?
FRED - Passamos quase dez anos como banda de garagem, eu fazia faculdade na época. Nem conhecíamos Chico, Jorge [Du Peixe; Nação Zumbi]. Nesse período surgiu o som da banda. Boa parte do repertório do "Samba Esquema Noise" [o primeiro disco] foi composta nos anos 80, entre 1984 e 1992. Quando fomos contratados pelo [selo] Banguela, tínhamos material para um disco triplo.

FOLHA - O que o mangue beat trouxe de inovador?
FRED - O vínculo com o conceito de diversidade. Não era um mero movimento musical porque não havia um formato padronizado de música. Tinha uma postura de celebrar a diversidade e colocar o Recife no mapa com uma linguagem contemporânea. O ambiente na época era conservador, regionalista, voltado para a cultura ruralista. E Recife era uma metrópole, com circulação de informação cosmopolita, mas sem espaço para se expressar. Na própria universidade havia um ambiente conservador, de unir o popularesco com a tradição ibérica. O contemporâneo, o pop, não tinham espaço.

FOLHA - Qual é o legado deixado pelo mangue beat?
FRED - Em Recife, é evidente a superação desse conservadorismo. Hoje há uma predisposição do público e dos gestores públicos muito mais receptiva em relação ao contemporâneo, ao urbano e à diversidade. O próprio Carnaval do Recife é diferenciado pelo multiculturalismo. Ao contrário da axé music na Bahia ou do samba no Rio, no Carnaval de Recife há o festival Recbeat, que toca de salsa a rock e eletrônica, além de polos de frevo, de maracatu, de hardcore. O mangue beat foi uma inspiração para isso.

FOLHA - Em um segundo manifesto [o primeiro do mangue beat é de 1992], vocês afirmam ter medo de ter parido um "monstro incontrolável". Por que esse receio? As ideias do mangue beat foram distorcidas?
FRED - O mangue beat continua fomentando debate. Hoje ainda me perguntam: "Como faço para ser um mangueboy?". Hoje tem banda que diz fazer um som "mangue". Isso é uma distorção do sentido original da coisa. Não defendíamos a criação de um gênero musical. Era uma movimentação em torno da diversidade e do rompimento com o tradicionalismo.


Em São Paulo, lama, caos e corrupção

XICO SÁ
COLUNISTA DA FOLHA


Repórter farejador da lama política, esperava uma chamada sobre o destino do capo PC Farias, mas o fone do apê da Frei Caneca só tocava para os caras. Imprensa e gângsteres de gravadoras à procura de Science e Zero Quatro.
Primeira excursão, ainda sem discos, da Nação Zumbi e do Mundo Livre S/A, ano da graça de 1993, São Paulo.
Foi aí que atinei para a marcha da história: estão aprontando alguma e não me contaram direito a bola. Com Zero Quatro, amigo do jornal "A Brecha" e de um grupo de estudos sobre "Crônica de Uma Morte Anunciada", do García Márquez, havia sido enquadrado no campus da UFPE, rua 7 de Setembro e Beco da Fome, geografia afetiva e bagaceira do Hellcife velho de assombrações tantas.
Este outrora poeta também abria alguns shows do Mundo Livre, com leituras ao som do Love, play again Arthur Lee, teu povo o espera, volta, miserável, "forever changes"!
Science não dizia nada do que estava acontecendo, só tirava "la buena onda"; Zero Quatro tampouco. Nem dava tempo. Eles correndo para encontrar os "falcões" (crédito para Bob Dylan, baby) das gravadoras -na era paleolítica em que ainda se precisava disso- e o repórter fuçando pistas. De corrupção durante o dia e de rock à meia noite. Logo depois, Bia Abramo e Alex Antunes, meus Freuds do mangue bit (era assim a grafia inicial) me explicariam tudo.
Bem que o síndico de pijama bege e trezoitão em punho tentou acabar com a "embaixada" cósmico-universal-pernambucana, o quarto e sala da Frei Caneca. Sim, a trilha sonora era muito Hosana nas alturas, glória. Quando saiu "Da Lama ao Caos", audiência inaugural, pense no silêncio dos tambores da Nação! Fui expulso de vez do prédio.
Inesquecível madruga com du Peixe, Lucio e Chico. Falamos de amores distantes e Corto Maltese, que inspiraria mais adiante, com a sua HQ que aborda Lampião, a música "Tiro Certeiro". Ufa, como é bom passar no ferro quente da memória as brasas nunca adormecidas!

Conheça e Participe você também do Sarau Virtual Palavra



Poetas que buscam uma nova poesia, artistas que pensam uma arte inserida na Cibercultura. Este é o perfil dos participantes do Sarau Virtual Palavra, um evento virtual que promove a interação dos saraus por meio de hiperlinks. Vários artistas fizeram links entre seus trabalhos pela proximidade de sentidos. O resultado dessa proposta hipertextual soma-se ao Álbum Palavra, hipertexto poético e musical proposto por Eros Trovador.

O Álbum como um todo busca o sentido da palavra em uma época multimídia. A poesia virtual é vista como poesia hipertextual, dando pistas para um discurso não-linear próprio de uma cultura também multimídia, onde a informação pode ser acessada e revelada a qualquer momento.